Relatos de Olavo Bilac

Olavo Bilac frequentou Caxambu no início de 1900 e deixou vários Relatos.

Olavo Bilac, que se Hospedava no Palace Hotel em Caxambu, possuía grande Estima pela cidade e deixou vários Textos. Confira.

 Olavo Bilac frequentou Caxambu no início de 1900

e escreveu sobre a cidade no jornal do Rio, “A Notícia”, na coluna “Registro”. Eis um trecho de seus escritos:

 “O que sei é que as águas santas são santíssimas para quem sofre do estômago ou do fígado. E ainda os que têm o estômago sólido e o fígado sem defeito, esses mesmos aqui vêm encontrar uma paz e alegria que lhes robustecem, o corpo e o espírito.

Esse milagre é operado, em parte pelo uso das águas mas é também devido à doçura deste clima abençoado, dessa serra e desse céu e, principalmente, à bondade sem par desta gente de Caxambu – uma gente que tem a alma na boca e nos olhos – uma gente meiga que conserva e zela como uma relíquia moral de valor inestimável, a tradição da fidalga e carinhosa hospitalidade mineira – uma gente que acolhe o forasteiro, com um tal requinte de afeto e de sinceridade, que ele, ao partir, deixa cair por aqui um pedaço do coração”.

  Postal enviado de Caxambu – MG por OLAVO BILAC em 9 de Abril de 1906

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CRÔNICA 1

Crônica de Olavo Bilac no Jornal Gazeta de Noticias ( RJ ) de 15 de Abril de 1906

CHRONICA

Caxambu, sexta-feira.

Não sei o que haverá lá em baixo, na empoeirada Sebastianópolis, hoje e amanhã, que mereça o comentário da Crônica de domingo. Não sei, nem quero saber. Vim viver nesta Serra feiticeira os últimos dias da Semana Santa.  – poucos dias de paz e de encantada conversa com a Natureza que valem meses de saúde.

Lá em baixo haverá poeira e calor, mexericos e tolices, e muita gente, vestida de negro, visitando igrejas, e fingindo respeitar e praticar uma religião que é todos os dias desrespeitada e profanada pela maldade e pelo egoísmo dos que dizem respeita-la e pratica-la. Aqui, há árvores e pássaros, há a gente simples da terra, e há a multidão dos aquáticos, que, no convívio dos pássaros e das árvores, abandonam a sua impostura, e vivem simplesmente, naturalmente, sem hipocrisias e sem complicações.

Naturalmente, não há muito que dizer de tudo isto … Só haveria um meio de escrever uma boa crônica a respeito de Caxambu: seria passar para o papel um pouco do céu azul que me cobre, um pouco da frescura e do perfume das matas que me cercam, um pouco da soalheira alegre que ilumina estes dias, um pouco do meigo luar que diviniza estas noites, e condensar tudo isso em alguns períodos claros e cantantes, em que ficasse residindo, por milagre, um pouco do incomparável encanto d’este pequeno éden. Quem sou eu, porém, para operar milagres ? A minha prosa há de sempre ser insipida e indolor; e, se estas arvores e estes pássaros a pudessem ler e entender, que vibração de sarcasmo e de desdenhosa compaixão haveria nas suas folhagens e nas suas plumagens ! …

Abril é, em Minas, o mês das manhãs gloriosas, dos dias esplendidos, das noites de suprema poesia. A ultima semana de março levou consigo as últimas trovoadas e as últimas chuvas; reaparecem as flores, que até agora o aguaceiro impiedosamente desfolhava; o inverno ainda vem longe, e o verão já morreu; tudo acorda, numa clara harmonia e num divino enlevo, durante este doce outono mineiro, que faria as decantadas primaveras da Europa morrerem de inveja e ciúme, se entre as Estações, como há entre as Mulheres, pudesse haver ciúmes e invejas …

A vasta e formosíssima zona mineira de que Caxambu é o centro e a joia mais bela, pagou o seu pesado e doloroso tributo ao tempestuoso verão d’este ano. Os campos que se estendem às margens da “ Minas e Rio ” e da “ Sapucahy ”, foram tristemente devastados pela inclemência das inundações. Soledade é um acervo de ruinas, boiando em águas estagnadas; em S. Lourenço, ao lado dos destroços das casas que ruíram, as casas, que a enxurrada poupou ainda conservam, fixada por uma lista de tinta barrenta perto das cumeeiras, a recordação do nível altíssimo a que chegaram as águas. O rio Verde não quis, em furor assassino e em destruidora sanha, ficar abaixo do Parahyba, e andou por estes campos, desencabrestado e indomável, espalhando o terror e propagando o estrago.

Mas a vila de Caxambu, pequenina e risonha, alcandorada no vértice das serra, dominando os campos e os vales, pouco sofreu. O fino e sereno Bengo, que a rega e refresca, é um manso fio de água, incapaz de cavalarias altas. Se ele se atrevesse a fingir descabidas cóleras, troçá-lo-iam sem dó os bandos de periquitos verdes que passam todo o dia a revoar sobre as suas águas claras …

Os lindos, os travessos, os verdes periquitos do Parque de Caxambu ! São cem, são quinhentos, são mil, são incontáveis … Tinham levado um misterioso sumiço, acossados pelas chuvas, mas reapareceram agora, mais numerosos, mais alegres, mais traquinas, mais gritadores.

Paris tem os seus clássicos pardais os seus Moncaux sagrados, que são os nomes alados da grande e prodigiosa cidade, – criaturinhas frágeis e joviais., que todos os parisienses adoram, com uma enternecida e supersticiosa paixão, Caxambu ( que, graças a Deus, só tem este ponto de semelhança com Paris ) também possui os seus passarinhos tutelares: são os periquitos do Parque das Águas, – pequeninos e espertos, de um verde claro, de um verde folhagem tenra e húmida.

Quando eles surgem, nestas manhãs enevoadas de abril, antes da hora apoteótica em que o sol vitoriosamente retalba, franja, esfiapa e dissipa os véus da neblina, – quando eles surgem, e começam a revoar e a gritar, dir-se-ia que o céu está chovendo esmeraldas, tão vivamente os seus corpinhos verdes se destacam sobre o fundo alvo da cerração. Mais tarde, abrigam-se nos bambuais cerrados, nas  copas espessas das magnólias, dos cedros-do-brejo e das figueiras, e, então, confundem-se com o verde das ramagens; – e, como a gente não os vê, parece que são as próprias árvores que adquirem voz, para saudar, numa gritaria álacre, os “ aquáticos ”, que se encaminham gravemente, empunhando os copinhos graduados, para as fontes regeneradoras …

Palavra de honra ! Vale a pena aturar às dez horas da viagem pela  “ Central ” pela “ Minas e Rio ”, e pela “ Sapucahy ”, só para travar conhecimento amável com os periquitos de Caxambu ! Ai de mim ! tenho pena de mim mesmo, quando me lembro de que, d’aqui a dois dias, vou deixa-los, e que, durante todos o ano, quando me viér o desejo de ver e ouvir periquitos, terei de contentar-me com os da Câmara e com os do Senado !

Doce Terra, Doce Vida ! Mas …

Ainda ontem, um rude e bom homem d’aqui, que nunca d’aqui saiu, que aqui nasceu e aqui há de morrer, – um humilde trabalhador de roça, em conversa comigo, dizia-me; “ Vosmecê gosta d’isto, porque é novidade ! Onde vosmecê vive, e que vida deve ser boa, com muita gente, com muita festa, com muito barulho, com muita alegria ! A gente aqui apodrece de tristeza …

Dizia-me ele isso, à hora do anoitecer, quando já a noite afogava o côncavo do Parque, e apenas o alto do morro de Caxambu, com o seu cruzeiro votivo, recebia ainda um beijo escasso da luz da tarde. Uma doce melancolia, baixava sobre a vilazinha quieta; o frio aumentava; as primeiras estelas acordavam, palpitando vagamente no céu pálido. E longe, do extremo da povoação, adiantavam-se lentamente, também vagamente palpitando, como outras estrelas rasteiras, as luzes das tochas de uma procissão religiosa que saia da igreja. Que paz e que poesia em tudo ! Uma alma nova, cheia de suprema bondade e de ternura infinita, animava todas as coisas …

E eu pensei comigo mesmo: “ Afinal, este bom homem tem razão ! Eu sou um civilizado, ou antes um envenenado pela civilização: não poderia viver sempre aqui, nesta paz e nesta meiguice, porque teria saudade da poeira, das intrigas, da hipocrisia, da peraltice do Rio. Na roça teria saudade da cidade, como na cidade tenho saudade da roça … Porque ? porque sou  um complicado, um civilizado, um “ urbano ”? Não ! porque sou homem, e todo o homem é incontentável. Também este pobre roceiro, que é um simples, um rústico, um “ natural ”, abomina a roça, e tem inveja de quem vive na cidade … Oh ! deuses imortais ! ninguém neste mundo é feliz, ninguém neste mundo está contente com a sua sorte, ninguém neste mundo é digno de viver ! … ”

Ora, adeus ! Por hoje, ainda não tenho saudades do Rio, e não as terei de certo nas quarenta e oito horas que ainda posso gozar de serra, de sossego, de ar puro. Fica-te por aí, pena estupida ! Vou dizer versos líricos aos periquitos do Parque …

Olavo Bilac

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CRÔNICA 2

Olavo Bilac frequentou Caxambu no início de 1900 e escreveu sobre a cidade no jornal do Rio, “A Notícia”, na coluna “Registro”. Eis um trecho de seus escritos do dia 31 de Março de 1907.

No Parque das Águas, às 8 horas da manhã, – à hora triunfal em que o sol despedaça as névoas e despenha as suas cascatas de ouro fluido sobre os relvados verdes – à hora em que os periquitos, saindo dos bambuais cerrados, vêm revoar em torno das copas das acácias e dos cedros, numa gritaria ensurdecedora, comentando talvez, na sua linguagem misteriosa, a gravidade com que os aquáticos,  corados e vendendo saúde, mas convencidos de sofrer do estômago, sorvem religiosamente os seus dez goles matinais de água D. Pedro ou água Viotti.

A essa hora, o parque era como uma imensa e maravilhosa cesta de flores, que a luz do sol beijava com delírio. Faceiravam-se as dálias; empinavam-se orgulhosas nas hastes das roseiras as grandes rosas vermelhas; trocavam desafios de cor e perfume os grandes cravos redobrados; até as humildes margaridas tinham um ar de rainhas ! E sobre as flores voavam as borboletas, como voavam sobre as árvores os periquitos, sem fazer o barulho que eles faziam, mas possuídas da mesma intensa alegria de viver, de gozar a vida, de animar e glorificar com a sua presença este lindo canto edênico da terra mineira, onde até a alma seca do mais seco dos financeiros e dos políticos seria capaz de rebentar numa explosão de sonetos e de madrigais.

CRÔNICA 3

Crônica de OLAVO BILAC no Jornal Gazeta de Notícias:

 “ Renovação de Energias ” em CAXAMBU – MG.

“ Noites frias, em que o prazer de dormir parece o antegozo da bem-aventurança do céu; madrugadas de ouro e fogo, em que a luz levanta de cada moita uma nuvem de azas e uma sinfonia de gorjeios; dias de sereno esplendor, varridos de aragens frescas, que trazem todos os perfumes embriagadores da mata; – ali está o que é capaz de, em meia dúzia de dias, restituir o vigor ao cérebro mais cansado e a alegria ao coração mais triste. É o que esta montanha abençoada fornece aos que a procuram; e, retemperada por este ar de incomparável doçura e por este rejuvenescedor convívio com a Natureza, – pode a gente depois voltar sem perigo para o calor violento, para o calor sufocante e para as amofinações da cidade … Isto é o Paraiso a nove horas de viagem do Purgatório; é a Fonte de Juventude, posta ao alcance de quantos, devorados por um trabalho mental incessante, envelhecem mais depressa do espírito do que do corpo. Ainda agora, abrindo a janela do quarto, ao romper do meio dia, senti que o ar entrava cantando nos pulmões; e houve dentro de mim como uma ressurreição da mocidade morta. O Parque  acordava, ansiando e sorrindo, aos primeiros beijos do sol, nas árvores pairavam, iam e vinham, revoadas de periquitos verdes, como esmeraldas aladas, – bandos tagarelas desses periquitos, que são para Caxambu o que os pardais são para os jardins de Paris; hóspedes perpétuos, complementos forçados da paisagem … Ao longe carros de bois rinchavam, despertando os ecos nas quebradas das serras. A gente do povo, que passava para o trabalho, tinha um sorriso bom, florescendo na boca, e um sangue vivo, sorrindo na face; – e eu, alargando o olhar e a alma pelo horizonte infinito, lembrava-me com terror do tilintar dos bondes elétricos e do estrupido das carroças, e do sol assassino, e do pó sufocante, que me esperam no Flamengo. Esperai-me ainda por uns três ou quatro dias, ó duros aborrecimentos da cidade ! daqui a pouco, irei tornar à minha canga, à minha calceta e à minha resignação de galé. Mas, para vos suportar, levarei comigo a recordação desta paisagem, que me está embriagando os olhos e uma basta provisão de alegria e saúde; e serei como aquele demônio da lenda escandinava, que era feliz entre as chamas do inferno, só porque pudera, durante um minuto escasso e fugaz, contemplar a formosura do céu. ”

CRÔNICA 4

Crônica de OLAVO BILAC sobre Nhá Chica

 26 de Fevereiro de 1905

Passei ontem o dia em Baependi, na velha cidade mineira, que abriga sua velhice veneranda num recanto da Serra da Mantiqueira, a três quartos de léguas de Caxambu.

_ Que vai fazer a Baependi? _ Perguntavam-me todos. _É uma cidade morta…

Ah! Como eu amo essas cidades mortas do interior do Brasil, esgotados mananciais da nossa civilização, arruinados berços da nossa vida de povo, guardando sob a melancolia das suas ruínas a lembrança das gentes fortes e atrevidas, que foram as primeiras a desbravar estas terras! Nelas, cada muralha derrocada, cada vetusto palácio, cada laje vermelha da estrada, cada tapera abandonada tem uma história: todas essas histórias parciais reunidas formam a história da nossa raça.

Todas essas velhas cidades foram outrora animadas e brilhantes, possuidoras de uma vida intensa, pontos de passagem e estações de paradas das imensas caravanas comerciais, que varavam os sertões, propagando a agitação e a riqueza; todas elas preponderaram na política da era colonial e da era da independência; todas elas deram ao Brasil filhos ilustres; _ depois, o comércio e a civilização foram concentrar-se em outros pontos, elegeram outros caminhos para a sua expansão, _e elas ficaram, desertas e mudas, vivendo da recordação do esplendor passado; _ mas a sua população conservou a bondade, a simplicidade de vida, o nobre orgulho das populações primitivas, e elas são o sacrário do nosso passado, o livro em que palpitam as crônicas da existência nacional…

*  *  *

De Caxambu a Baependi, a viagem é um deslumbramento.

Os cavalos galopam alegremente pelos caminhos orvalhados, subindo e descendo colinas, afundando-se em gargantas barrentas, galgando visos inundados de luz, vadeando lagoas, esfarelando com as patas grandes blocos de pedra calcária, beirando rochedos de que saltam fios de água viva. A cada volta da estrada, o panorama se modifica e se renova: aqui, tapam o horizonte as serras acasteladas; além, uma campina toda verde se desdobra, monótona e intérmina; mais adiante, rolam cascatas de pedra faiscante, cavam-se abismos negros, rutilos ribeiros inquietos, alvejam boiadas no pendor dos morros. É a paisagem mineira, em toda sua exuberante majestade…

De repente, derramada por um declive, aberta em leque sobre a verdura da colina, aparece a velha Baependi, que, vista de longe, com o prestígio do claro sol, finge uma graciosidade mocidade risonha.

Agora, os cavalos pateiam, com estrépito, sobre as grandes lajes do calçamento da primeira rua, sobre esses largos pedaços de pedra ferruginosa, que calçam todas as cidades da Minas anciã.

São oito horas. Na torre carcomida de uma capela, canta um sino quase sem voz – um sino velho como a cidade – anunciando a missa. O tropel dos animais chama às portas e às janelas das casas os habitantes curiosos.

Atravessamos quatro ou cinco ruas em ladeira, e paramos em frente à Matriz.

Essa igreja é uma das duas “curiosidades” de Baependi. É administrada por um padre, que é um artista. O Vigário Marcos Nogueira concebeu, há anos, o projeto de fazer daquele templo um monumento de arte original. Mandou destruir os ornatos de destaque que os revestiam, e começou a cobrir o teto, as paredes, os altares, de madeira esculpida.

É preciso dizer desde já que o vigário Marcos está executando aquelas obras à custa de sacrifícios incríveis, e que os escultores que ali estão criando uma maravilha de obra de talha são artistas revelados como por milagre, – homens que amigo das artes descobriu com uma argúcia de “achador de tesouros”.

Claro está que a expressão “uma maravilha de obra de arte” deve ser aceita, num sentido restrito. Aquilo não seria uma maravilha, se fosse trabalho de profissionais… Mas, sendo trabalho de amadores, é um tour de fource admirável, que seduz e comove. O que é mais original, nesse trabalho, é o brasileirismo da ornamentação, em que foram aproveitados, como “motivos”, vários espécimes da flora mineira. Todo o teto da nave da ábside está sendo coberto de um entrelaçamento de folhas de palmeira, bananeira, fumo e café, em cedro e peroba; de espaço a espaço, pende um gragoatá de largas espátulas espinhosas, e há florões de vidas, entre folhagens de magnólia e cinamomo.

Do romper do sol ao cair da noite, o vigário Marcos ali vive, entre os andaimes, animando os operários, vendo tudo, dirigindo tudo, embevecido no seu grande sonho artístico, animado pelo único desejo de erigir aquele monumento de paciência e tenacidade à glória da sua Fé…

_ Quando ficarão prontas as obras? _ perguntei-lhe.

_ Não sei, daqui a uns dez anos, talvez. _Disse-me ele sorrindo com o olhar iluminado pela alegria de compreendido e aplaudido o seu sonho…

* * *

A outra curiosidade de Baependi é a sepultura de Nhá Chica, a Santa do lugar

A sepultura está no interior da igreja que Nhá Chica erigiu, à custa de esmolas, junto da casinha modesta, onde essa boa mulher passou sessenta anos de uma vida virtuosa, praticando o bem, consolando almas inquietas, aconselhando espíritos fracos, e operando “milagres”.

A casa, quase arruinada, é baixa, de parede de taipa, coberta de grossas telhas cor de vinho, _ com três portas e duas janelas. Na porta do aposento, em que vivia Nhá Chica, há uma cruz de cor branca.

A igreja, pequenina e alva, tem único altar, singelo e florido. Entre o altar e o coro, no meio da capela, fica a sepultura, _ coberta por uma laje de mármore, onde se lê: “Francisca Paula de Jesus começou a edificar esta igreja em 1867, deixando-a quase concluída, quando faleceu octogenária. Falecida a 14 e sepultada 18 de junho de 1895”. Sobre a pedra, há uma cercadura de flores naturais, diariamente renovada pelos devotos.

Quem foi Nhá Chica? Uma excelente mulher, analfabeta e crente, de alma simples, de coração caridoso, e de esclarecido bom senso, _ que se supunha inspirada diretamente por Nossa Senhora, quando era simplesmente inspirada pela sua própria bondade e pelo seu próprio critério. Em todas as situações difíceis da vida, os que procuravam Nhá Chica iam nela achar um conselho prudente, uma palavra de animação, de carinho, de esperança. Graças a esse conselho e a essa animação, e graças ainda ao extraordinário tino com que a Santa resolvia os mais difíceis problemas, _ a sua fama cresceu, e afirmou-se a sua santidade. Abençoavam-na os ricos, que lhe deviam o consolo; abençoavam-na os pobres, que lhe deviam o pão; e admiravam-na todos, pela sua virtude exemplar, pelo seu incansável altruísmo, pela sua nunca desmentida caridade.

Era uma Santa, a Nhá Chica? Era, decerto. Santas são todas as almas que desconhecem o egoísmo e a maldade, e que só sabem espalhar em torno de si os benefícios, o conforto material e moral, o alívio dos sofrimentos…

Como se lê na lápide de seu túmulo, Nhá Chica faleceu a 14 de junho, e só foi sepultada quatro dias depois… Diz-se que durante esses quatro dias, o seu corpo não entrou em decomposição; e foi isso que ainda mais robusteceu a fama da sua santidade.

Nhá Chica, quando morreu, era uma velhinha mirrada, de corpo consumido pelos jejuns, só pele e ossos. Morreu em junho, em pleno inverno mineiro, _inverno seco e rigoroso. Tudo isso bastaria para explicar a conservação do seu corpo, quatro dias depois da sua morte… Mas para que dizer isso à boa gente, que acredita em milagres? Em torno do nome de Nhá Chica, já se formou uma suave lenda poética, que não convém destruir. As lendas poéticas são tão úteis e tão necessárias, como o pão que se come e o ar que se respira: elas elevam e purificam as almas, apuram a imaginação, e consolam das misérias e das amarguras da vida real…

* * *

Depois de almoçar, atravessamos a cavalo o rio Baependi e fomos visitar a casa em que nasceu Brás Carneiro Nogueira da Gama, marquês de Baependi. É uma velha casa que se chama “o Engenho”; está arruinada e triste, no meio de uma linda paisagem sempre nova e alegre. É aquele um dos solares da moderna nobreza de Minas, _ nobreza patriarcal, saída do nobre trabalho da lavoura, como a dos antigos reis parses da Judéia. Em Baependi, há várias casas como aquela, ilustres, pelo fato de ter abrigado os primeiros dias de vida de homens que se tornaram notáveis na política da independência, e do primeiro e do segundo Império.

Uma cidade morta, sim! Mas há Morte uma certa majestade e uma certa poesia, que nem sempre se encontram na vida… Baependi, privada hoje do seu antigo e florescido comércio, pode dormir tranquila no seu orgulho e na sua honrosa pobreza; nós todos, devemos respeitá-la e amá-la, porque ela foi um dos núcleos de formação da nossa nacionalidade.

Ai de nós! Nada é eterno: nem os homens, nem as cidades, nem os países, _ nem todo este planeta em que rolamos através do espaço infinito!

Olavo Bilac

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