MAYRINK E CAXAMBU

Conselheiro-Francisco-de-Paula-Mayrink

Da revista “Fontes da Vida” ed. Julho de 1962

O Conselheiro Francisco de Paula Mayrink, era, ao findar do século passado, um cidadão de notáveis atividades no Pais.
Sua Influencia econômica, política e social exercia-se no Estado de Minas Gerais projetando-se no cenário nacional. Alem de Deputado à Constituinte, dirigia varias Empresas tais como a Estrada de Ferro Bahia-Minas, os serviços de águas e esgotos de Barbacena, fábricas de tecidos, a Companhia Frigorífica Mineira e outras….
Possuindo largo discortínio, vislumbrou em Caxambu possibilidades para um bom empate de capital que alem de razoes financeiras poderia ainda satisfazer o seu idealismo de homem progressista e dedicado patriota.
Interessando-se pela nossa Estância, em 1890, adquiriu a concessão para a exploração de nossa águas minerais.
Essa concessão que fora outorgada em 1883 ao Dr. Saturnino Simplício de Salles Veiga foi por este cedida a Mayrink pela importância de 515.000$000.
Em junho de 1890 o Presidente João Pinheiro aprovava a transação e Mayrink procurou adquirir outras propriedades na povoação.
Assim foi que comprou o Hotel da Empresa, a antiga residência do Dr. Carlos Teodoro Bustamante, a chácarazinha onde é hoje a Escola Wenceslau Braz e um restaurante onde localiza hoje o Grupo Escolar Pe. Correa de Almeida, adquirindo ainda varias outras casas residenciais.
Tão logo o Presidente João Pinheiro aprovava a transação, o Conselheiro determinou a um seu parente que se encontrava em Paris, o Dr. João Carlos Mayrink que contatasse o Engº Dr. Henrique Laligant, técnico de fama na época para aqui vir e realizar estudos necessários ao bom e concessioso aproveitamento das nossas fontes.
Laligant aqui chegando iniciou o seu trabalho de cujo resultado fez detalhado relatório a Mayrink:
“Do estudo da composição das fontes deduzir-se-á a sua utilidade e aplicação, mas isto compete exclusivamente aos senhores médicos”, dizia Laligant em seu relatório, e Mayrink para completar o trabalho conseguiu que a Academia de Medicina do Rio de Janeiro em 1893 delegasse poderes a uma Comissão para aqui vir examinar as águas.
Era composta essa comissão dos seguintes professores: João Batista de Lacerda, Joaquim Pinto Portela, Cezar Diogo e Francisco de Castro.
Não se limitou o Conselheiro as atividades dentro do Parque, pois obteve concessão da Municipalidade e instalou um linha de Bondes que ligava os pontos mais distantes da povoação, tentando ainda naquela época dota-la de iluminação elétrica.
Como Deputado à Constituinte teve decisiva influencia na construção do ramal da Estrada de Ferro de Soledade à Caxambu cujo percurso era feito anteriormente a 1891, por meio de troles, carros de boi e a cavalo.
Dado suas relações sociais não se esqueceu de difundir uma boa propaganda das virtudes das águas de Caxambu nas grandes capitais, tornando nossa Estância melhor conhecida.
Em 1893 foi obrigado a renovar o contrato, o que foi feito, após um parecer apresentado ao Conselheiro Afonso Pena, Secretário da Agricultura pelo Dr. Samuel Gomes Pereira, consultor técnico do Estado.
Nesse parecer constaram as seguintes expressões: “Em 1890, o Conselheiro Mayrink recebeu o estabelecimento em ruínas, as fontes inutilizadas, o recinto do Parque em estado primitivo, apenas cercado por uma cerca de arame-farpado e servindo de pasto aos animais.
Com a administração de Mayrink tudo mudou de aspecto, quase todas as fontes forma novamente captadas e beneficiadas, o BALNEARIO foi totalmente reparado e melhorado, a aparte do parque onde estão situadas as fontes, foi aterrada, ajardinada e cercada por um gradil de ferro, o Hotel da Empresa foi reconstruído, aumentado e remontado com capricho e todas as comodidades que lhe atraem a concorrência publica, finalmente tem o empresário construído grande números de casas as expensas suas e bem assim aterrado ruas da povoação que são hoje as únicas transitáveis em tempo das águas”.
“Todos esses melhoramentos são devidos a iniciativa do Empresário que tem dispendido ali centenas de contos de réis e não seria justo que o Governo correspondesse a tantos serviços de utilidade pública, rescindindo o contrato, justamente na ocasião em que ele vai começar a tira resultado dos seus sacrifícios”.
Cheio de outras considerações favoráveis ao Conselheiro Mayrink o parecer foi aprovado e em junho de 1895 foi assinado novo termo de novação do contrato.
Não obstante a dedicação e espírito progressista de Mayrink, sofreu ele uma campanha tenaz que viria influir na sua administração.
O Jornal “Atualidade” publicado em Baependy e a “Gazeta de Caxambu” criticavam continuamente a Empresa sem contudo conseguirem arrefecer o ânimo do Conselheiro em seu trabalho.
Procurava seguir o seu caminho, tanto assim que cuidava do problema do engarrafamento da água por métodos modernos, e assim foi que em 2 de Janeiro de 1899, o Sr. José Serrano Moreira da Silva escrevia: “No Diário Oficial de 17 de Fevereiro de 1896, que V. Excia., poderá obter aí com facilidade, encontrará a descrição completa do sistema empregado para a saturação e engarrafamento das Águas de Caxambu e poderá enviar ao Ministro da Agricultura essa descrição para que ele possa avaliar e julgar o alegado pela Empresa da Água Estrela”.
“Basta uma rápida visita ao engarrafamento para se verificar que não se pode exigir mais perfeição em tal serviço. O processo para a gaseificação, isto é, para sobrecarregar de gás a água, com gás extraído da própria água, conquanto simples, é no entanto o único gênero, pois que só Caxambu conseguiu obter esse melhoramento que é privilegiado pelo governo da União”.
Segundo o depoimento de D. Guimar Mayrink, filha do Conselheiro, teria ele gasto em Caxambu, em construções, compras de terrenos, material técnico, aparelhos e maquinismos diversos, mais de cinco mil contos de réis ou sejam 5 milhões de cruzeiros o que para época representava investimento extraordinário.
Não se pode ainda olvidar o fato de que foi o Conselheiro Mayrink que completou as suas custas as obras da Igreja Santa Isabel, que havia sido iniciada pela Princesa Isabel em 1868, quando aqui esteve com seu esposo Conde D’Eu.
Parece-nos que o velho Conselheiro adquiria especial devoção por aquela Igreja, pois sua filha D. Guiomar traduz os sentimentos de Mayrink já em 1900 com as sua seguintes palavras:
“Quando porém os ventos da adversidade começaram a soprar, e a estrela de Mayrink empalidecia, desencadeadas as paixões de ambições políticas, também vasculharam aquele refúgio predileto de Mayrink, onde ele se ia reconfortar das agruras da vida devotada ao bem e a felicidade de sua querida pátria”.
Pela leitura desse depoimento, parece-nos que Mayrink lutava contra adversários que não concordavam com a sua administração e tomavam parte no próprio governo, já se cogitava da emancipação político-administrativa do então distrito de Caxambu, tanto assim, que numa carta endereçada em agosto de 1900 ao Conselheiro, o Desembargador Carlos Ottoni informava ao seu amigo Mayrink que o Governo mais uma vez iria exigir outra novação de seu contrato e já havia a idéia da criação de Prefeituras nas Estância Hidro-Minerais.
Mayrink devido sua posição e alta representação política foi certamente um dos paladinos da emancipação, porquanto alem do sentido patriótico tinha os seus interesses presos a um estado de cousas que somente a autonomia poderia solucionar.
Juntamente com Praxedes da Costa e outros em 2 de abril de 1901, redigiu uma representação popular dirigida ao Congresso Legislativo Estadual, pleiteando a autonomia administrativa e a criação da Vila de Caxambu.
Não obstante já ter Mayrink a certeza da renovação do contrato cujo teor se achava em discussão, resolveu ele próprio pedir a encampação da Empresa alegando motivos de ordem particular o que foi realmente feito em 1904, quando o Estado encampou a Empresa das Águas Minerais de Caxambu.
Os bens adquiridos pelo Estado foram pagos em 650 apólices no valor de …….. 650.000$000 na época.
Ao término das negociações o Conselheiro Mayrink escrevia ao Dr. Francisco Salles:
“Não sei se V. Excia., conheceu o Povoado de Caxambu no tempo em que adquiria a Empresa, bem como o estado precário em que se achavam as fontes e os estabelecimentos dentro do Parque.
O que posso garantir a V. Excia., é que o que passa hoje ao poder do Estado é coisa inteiramente outra do que era, não só pela feição agradável como pelas condições de prestabilidade que são completas”.
“Esta transformação V. Excia., como homem prático que é sabe que só poderia ser operada a custa de avultado capital”.
Ao Conselheiro Francisco de Paula Mayrink, Caxambu prestou sua homenagem de gratidão dando seu nome a uma de suas mais importantes Fontes Hidro-Minerais.

NOTAS HISTÓRICAS

Você Sabia?

…Que o primeiro aquático, a fazer uso medicinal de nossas águas, foi o Fazendeiro de Barra Mansa, Antonio de Oliveira Arruda e sua esposa, no ano de 1843?
(Antônio de Oliveira Arruda, fez uma subscrição em Baependi, destinada ao serviço de limpeza e escoamento do pântano onde se localizavam as águas minerais.
A subscrição resultou um total de 90$000 que foram entregues as João Constantino Pereira Guimarães, gastando este no referido serviço a importância de 50$000; o restante entregou a Felício Germano de Oliveira Mafra encarregando-o da execução do restante do serviço, bem como da descoberta de novas fontes).
…Que a primeira escola de Caxambu, foi inaugurada solenemente em 16 de agosto de 1870, fundada e mantida por muitos anos pelo Dr. Carlos Teodoro Bustamante?
…Que o primeiro livro escrito sobre Caxambu, foi de autoria do Cel. Fulgêncio de Castro em 1873?
…Que a “Represa do Jacaré” e outros melhoramentos de Caxambu foram feitos com o dinheiro do JOGO DO BICHO, numa aposta furtada ao banqueiro da época D. Ezequiel Jemenez em 18 de Abril de 1896?
…Que a Estrada de Ferro, foi inaugurada em Caxambu em 15 de março de 1891?
…Que a população de Caxambu em 1881 era de 200 habitantes e já haviam 130 casas construídas?
…Que a primeira estrada para o morro de Caxambu (zig-zag) foi inaugurada às 11 hs de manhã do dia 25 de agosto de 1873?
…Que em outubro de 1919, Ruy Barbosa esteve em Caxambu?
…Que em 1922 haviam 8 Orquestras permanentes em Caxambu, contratadas pelos Hotéis e Cassinos?
…Que o primeiro Prefeito eleito pelo povo em Caxambu, foi o Dr. Lysandro Carneiro Guimarães?
 

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