CRÔNICA CIENTÍFICA: CAXAMBU E JOÃO CARLOS

Da revista “Fontes da Vida” ed. Julho de 1962

1 – AS TRÊS FASES DA ESTÂNCIA
Na história de Caxambu há naturalmente três grandes fases.
1ª – a de 1843 a 1873, em que a primitiva Água Santa recebeu os melhoramentos iniciais que a tornaram as Águas Virtuosas de Baêpendy e em que se impõem os nomes dos seus fundadores: João Constantino, Oliveira Mafra e Teixeira Leal. 2ª – a que via de 1873 até o fim do século passado, representando o Caxambu Primitivo, e chamada com justiça a era de João Carlos, que foi o seu verdadeiro fundador social, e 3ª – a fase de transformação que sofreu o antigo povoado, após a prefeitura Camilo Soares, e de que resultou o Caxambu moderno, de 1910 a esta data. Entre a era de João Carlos e a ação remodeladora do grande prefeito Camilo Soares – o Passos da roceira cidade, houve um notável período intermediário (de 1890 a 1910), quando se desenvolveu a industria das águas minerais, com a organização da Empresa Mayrink; então, projeta-se sobre Caxambu, com intenso brilho, a figura do Dr. Policarpo Viotti, médico e diretor da Empresa.

2 – O HOTELEIRO MODELO
Vou tratar hoje de João Carlos Vieira Ferraz, homem cuja extraordinária capacidade de trabalho conseguiu abrir para a nascente hidrópole amplos horizontes no seu desenvolvimento social. Veio ele de Barra Mansa e adquiriu com Américo Brasil e Jose Divino Nogueira de Sá o pequeno Hotel de José Luís do Prado, hotel que mais tarde passou a chamar-se Hotel João Carlos, hotel da Empresa Mayrink (depois que o Conselheiro o comprou) e Parc-Hotel, após o conselheiro tê-lo vendido a terceiros. (Ainda conservo uma fotografia do tempo do veteraníssimo Hotel João Carlos).

3 – MAS CAXAMBU FICAVA LONGE…
Assim, a primeira coisa que fez João Carlos, residindo em Caxambu, foi ter o seu hotel. Mas Caxambu ficava muito longe, distava 96 quilômetros da estação da Boa Vista (da E. F. Pedro II). O caminho que trazia os passageiros (pretendentes a usar as águas) era quase intransitável: atoleiros e caldeirões por toda parte. Além disso, a serra do Picu, que alcança mais de 1.600 metros de altitude, tornava a viagem extremamente difícil e cheia de perigos, durando pelo menos três dias. As noites passavam-se em ranchos sem o menor conforto. João Carlos viu isso tudo e tratou de providenciar para os aquáticos, entre os quais muitas senhoras, pudessem chegar à estância sem maldizer da sorte, antes até achando uma certa graça nas aventuras da viagem.

4 – INFERNO TRANSMUDADO EM OÁSIS
Sabem que fez João Carlos?
Em primeiro lugar, entendeu-se com os estalajadeiros do caminho, que viraram ótimos propagandistas das fontes. Ao mesmo tempo, organizava um serviço do melhor gênero, quanto à condução: caleças ou liteiras forradas e de molejo macio para os doentes; bestas mansas e de marcha suave para os sãos. Os guias ou capatazes, amáveis e competentes no seu oficio. Nos pousos, melhorados materialmente e com refeições bem cuidadas, criou João Carlos um programa de verdadeiros show (como hoje se diz), com violeiros e sanfoneiros tocando e cantando para distrair e preparar um bom sono aos viajantes. E por esse modo, as horas iam-se passando e os 96 quilômetros de Boa Vista (mais tarde Engenheiro Passos) eram vencidos sofrimento.

5 – A PROPAGANDA INTELIGENTE
“Mas o serviço havia de ser completo. No inverno, transferia-se João Carlos para o Rio, estreitando relações com o velho Leonardo, Dr. Pederneiras (do Jornal do Comércio) e mais tarde com o grande Ferreira de Araújo, Elísio Mendes e Manuel Carneiro (da Gazeta de Notícias). Quer dizer: João Carlos conquistava as simpatias da imprensa carioca em favor de Caxambu, estendendo esse trabalho ao centro comercial onde gozou da estima e da confiança de negociantes como João Borges e a preferência do relacionadíssimo Pascoal da Rua do Ouvidor.
Assim agindo João Carlos, Caxambu foi visitado por toda gente fina, de norte a sul e, normalizada a freqüência, a propaganda eficiente era feita pelos hospedes do hoteleiro gentleman.” (Olímpio de Almeida, João Carlos, In Revista de Caxambu, 1924). Mais ainda: associou-se a Augusto Ribeiro, seu compadre, e criou há casa deste o Salão de diversões. Sempre preocupado em agradar aos aquáticos, promovia almoços e passeios em Baependy, não raro abrilhantados com a banda de musica de Antonio Pinto que naquele tempo, era um dos orgulhos da terra.

6 – “VOU MANDAR VER…”
Mas vale a pena transcrever mais um trecho de Olimpio de Almeida, que foi o maior amigo de João Carlos:
“O hoteleiro modelo não contrariava pedidos de hóspedes, embora aberrantes dos recurso da localidade.
– Vou mandar ver – era a sua fórmula, seguida pouco depois desta variante: ainda não se encontrou. Ficava o hóspede satisfeito e agradecido. Houve um que, por troça, disse um dia a João Carlos que queria levar de Caxambu, para sua noiva, lágrimas de codorna. João Carlos chamou Severino Catão – o destruidor dos campos – e transmitiu-lhe a exigência. No dia seguinte, Severino regressava com a garupa do punga cheia de bela caça e, ao avistar o hóspede, foi-lhe dizendo:
Sr. Dr. As codornas ficaram com tanta raiva da violência e certeza dos trios, que engoliram as lagrimas…
Houve risadas, e o lema do hotel ficou de pé.” (Olimpio de Almeida, Loc. Cit.).

7 – O MAIOR HOTEL DO BRASIL
O atual Palace-Hotel, de Caxambu (antigo Grande Hotel e Cassino João Carlos) encarna a obra de perpetua o nome do seu construtor a proprietário: foi, no seu tempo, o melhor estabelecimentos no gênero existiu no Brasil. E até hoje, desafia a critica do especialista na matéria. Mais de meio século transcorrido, e tendo passado a várias mãos, ainda goza da preferência de grande numero de veranistas.
O capricho com que João Carlos se houve na sua feitura e organização revela-se em tudo que ele outrora oferecia aos hospedes: elegância e decoração dos salões, conforto dos cômodos e louças, cristais, moveis, prata e rouparia – de que se tem prova em peças bem marcadas (J.C.) que resistiram à ação do tempo e ainda existem no estabelecimento. Alem disso, ficou ali a tradição da fidalguia de uma hospedagem que deixava saudades eternas.

8 – O FIM DE UM GRANDE HOMEM
Quando o conselheiro Mayrink comprou o primitivo hotel de João Carlos, em 1889, incorporando-o à Empresa de Caxambu, prometeu dar ao vendedor a gerência de uma empresa que exploraria a indústria hoteleira. Mas a promessa não foi cumprida. Então, João Carlos organizou a Empresa do Grande Hotel e Cassino. Para isso, não só gastou a fortuna que possuía, como contraiu empréstimos que não pode pagar. Os credores, impiedosos, obrigaram-no a hipotecar as suas últimas propriedades. Mas essa hipoteca não pode também ser resgatada – e tudo isso o Banco seqüestrou. João Carlos, de um dia para outro, ficou pobre, muito pobre…
Me 1924, quando dirigia eu a “Revista de Caxambu”, não deixei ser esquecido o nome e a obra de João Carlos. E foi para isso que convidei Olímpio de Almeida, seu advogado nas horas amargas, para recordar-lhe o perfil excepcional de homem de bem e de ação. O artigo que aquele órgão publicou terminava estas palavras:
“No dia 1º de julho próximo, passa o terceiro aniversário da morte de João Carlos, afogado em sangue (ruptura de aneurisma) em um modesto quarto de um chalezinho de Madureira. Mas João Carlos não morreu abandonado. Ao inumar-se, no cemitério de Inhaúma, eu e alguns amigos mais estivemos ao seu lado, firmes e saudosos e aquele seu adorado Caxambu de certo que não o esqueceu também. – Aí esta a obra da Revista de Caxambu.”
Sete lustros transcorreram. Revivendo agora, em 1959, a historia da estância, não podia esta Crônica Cientifica consentir igualmente que fosse extinta a lembrança do fundador social de Caxambu.

FLORIANO DE LEMOS

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