BANHOS CARBO-GASOSOS E HIPERTENSÃO

BANHOS CARBO-GASOSOS

Da revista “Fontes da Vida” ed. Julho de 1962
Dr. Lysandro C. Guimarães

O uso dos banhos carbo-gasosos em Caxambu é relativamente recente tal como sucede nas demais Estâncias Brasileiras que possuem água carbo-gasosas naturais.
Não obstante, é uma modalidade terapêutica aceita, estudada e muito difundida em outros países, especialmente na França, Alemanha e Itália, onde gozam de justa reputação científica. Entre nós, poucos conhecidos, não tem merecido por isso mesmo a atenção dos clínicos, quando escolhem um tratamento para os doentes portadores de uma síndrome hipertensiva ou perturbações cardio-varsculares.
Não dispondo nossas estâncias hidro-minerais de elementos materiais necessários a um melhor estudo de suas águas, os médicos residentes tem dificuldades em produzirem trabalhos que sirvam de guia, orientação em documentário, para que a classe médica em geral tome o necessário conhecimento do ponto de vista mais cientifico que empírico.
A vista disso somos obrigados a robustecer nossos conhecimentos através de literatura estrangeira, rica em pesquisas experimentais cujas citações servirão para testemunhar o alto conceito científico que empresta à hidro-climatologia em vários países.
Não obstante, a riqueza hidro-minero-medicinal no Brasil é extraordinária.
O Estado de Minas Gerais possui águas cujo valor terapêutico esta à altura e mesmo supera as sua congêneres estrangeiras.
É mistér, porém, que sejam melhor amparadas e cuidadas pelos Governos Estaduais e Federal, a fim de que se possa tirar o máximo de suas maravilhas naturais, preparando-as com os requisitos necessários para esse fim.
O Governo Federal acaba de decretar a Lei nº 2.661 de 3-12-55, que regulamenta o parágrafo 4º do artigo 153 da Constituição Federal que diz:
– “A União, nos casos de interesse geral indicados em Lei auxiliará os Estados nos estudos referentes às águas termo minerais de aplicação medicinal e no aparelhamento das Estâncias destinadas ao uso delas.”
Entre outras disposições contidas nessa Lei em seu artigo 3º estabelece:
Art. 3º – O Ministério da Saúde, depôs dos necessários estudos orientará o aproveitamento das riquezas hidrológicas e climática do País no interesse da ciência e da saúde pública.
Aguardemos portanto a execução desse pronunciamento que virá dar às nossas Estâncias condições outras para que possam atender à solução de seus maiores problemas, dando um condigno desenvolvimento à crenolagia e ampliando sob o ponto de vista econômico a grande indústria do turismo hidro-termo-climática.

A BALNEOTERAPIA CARBO-GASOSA

O banho carbo-gasoso é uma modalidade crenoterápica em cuja aplicação a água deve conter gás carbônico nativo em dissolução.
Deve, obrigatoriamente, obedecer a alguns requisitos tais como o conhecimento da proporção do CO2 e temperatura da água empregada.
Do manejo desses dois requisitos, chamados excitantes térmicos e químicos por Vaquez, depende o bom resultado do banho.
Tão logo imerso o paciente na banheira observa-se que uma grande quantidade de bolinhas gasosas aderem à superfície da pele, que toma uma coloração avermelhada dando uma sensação de calor agradável.
A Sociedade Internacional de Hidrologia do Paris, consagrou sobre o assunto em lide, importantes estudos onde, Wybauw sustentava que a ação fisiológica consistia na vaso-dilatação a aceleração do fluxo sanguíneo admitindo a passagem do CO2 através da pele, agindo assim sobre as células cutâneas e terminações para-simpáticas.
Na opinião de Vogt e Wachter a sua ação consiste no aumento da circulação e da atividade capilar da pele, não dependendo só a formação das bolinhas mas do gás dissolvido na água.
Julgam alguns que CO2 é, reabsorvido através da pele com uma rapidez de 30cc. por minuto ficando dependente da concentração do gás carbônico e da seguinte relação: tensão da água ÷ tensão da pele.
Noel Deschamps atribui o efeito fisiológico a uma vasodilatação superficial e efeito sedativo sobre o plexo simpático periarterial.
Aubertot e Mougeot embora respeitando as antigas teorias hidrostáticas, osmótica, da excitação dos nervos sensitivos e a dos reflexos por contrastes térmicos, sustentam com numerosas provas a teoria da reabsorção transcutânea do gás carbônico.
Baseado nos modernos conhecimentos da função endócrina e considerando a pele como um órgão de secreção interna estimulada pelo CO2, Groedel pensa na formação de hormônios não identificados com efeito desoxidante, agindo sobre as trocas e nutrição em geral.
Mougeot, Deschamps e Lassance, admitem ainda que o CO2 seja absorvido através do aparelho respiratório agindo desse modo sobre a pressão arterial por duplo mecanismo, o periférico-determinando uma hipotonia na musculatura arterial e o central, por uma excitação dos centros vaso-motores. Deschamps, explicando o mecanismo da ação do banho carbo-gasoso, diz o seguinte:
_ “Está ainda no domínio das conjeturas que se apóiam sobre experiências precisas, permitindo supor que o CO2, exerce uma ação complexa que se faz sentir por vezes sobre as paredes vasculares, sobre o miocárdio e sobre o sistema endócrino-simpático.
1º – Ação sobre as paredes vasculares: Vaso-dilatação por ação direta não se sabendo se atinge as fibras musculares ou as determinações nervosas neurotrópicas que aí se encontram.
2º – Ação sobre o miocárdio: por experiências realizadas chega-se à conclusão que a ação se faz: excitando as fibras musculares do miocárdio ou os centros nervosos autônomos intracardíacos, ação que pode ser comparada até certo ponto com a da digitalina.
3º – Ação sobre o vaso-simpático e de um modo mais geral, sobre o sistema endócrino simpático: medicamento sedativo da excitabilidade vago-simpática. Ação antagônica à da adrenalina dando diminuição da glicemia”.
O Prof. Camille Lion autor de notáveis estudos sobre o aproveitamento terapêutico com injeções subcutâneas de gases termais, fundamentou suas observações na influencia favorável dos banhos carbo-gasosos na síndromes vaso-constritoras mediante ação do gás carbônico.
Dessa opinião também compartilham Henderson, Blondel, Racine e Barrien.
Embora julguem que nem sempre a terapia carbo-gasosa produza efeito hipotenso sistemático, estão acordes em seus resultados benéficos.
Mesmo assim, haverá um efeito semelhante a uma ginástica cardio vascular, um verdadeiro treinamento, cujo resultado seria preparar o organismo, durante certo tempo, para evitar os perigos dos eventuais “poussés” ou crises hipertensivas.
Por isso mesmo Barrien afirma que quando uma cura carbo-gasosa não chega a melhorar a hipertensão, melhora necessariamente o hipertenso.
Não há dúvida que os banhos carbo-gasosos sejam de maior utilidade terapêutica, diz Frahrenkanp, eles aliviam o coração e constituem uma espécie de ginástica para a circulação.
O Prof. Landouzy os classifica de “Ótimos para o tratamento das afecções cardiovasculares” e o Prof. Robin emite o seguinte conceito: “O banho carbo-gasoso é a digital física do coração”.
Grande número de autores tem se dedicado ao estudo dos banhos carbo-gasosos e as numerosas explicações das teorias levantadas constituem um fiel atestado do interesse médico-científico pelo assunto, que com justa razão, deve merecer de toda a classe médica o devido apreço.

HIPERTENSÃO E BANHO CARBO-GASOSO

Basta refletirmos que uma de suas principais indicações é o tratamento da hipertensão arterial, para aquilatarmos da complexidade e as dificuldades que se apresentam.
Não obstante o trabalho pertinaz dos cientistas e médicos em busca de uma solução definitiva ainda não de decifrou a etiologia da hipertensão do “feocroenocitoma” e da gravidez ou mesmo da menopausa, cuja maioria dos casos de hipertensão desafia até hoje os nossos conhecimentos quanto ao fator etiológico.
Não sendo pois bem conhecida a causa e de modo muito particular a origem da hipertensão essencial, que é a modalidade mais freqüente, resulta que também para seu tratamento encontraremos dificuldades semelhantes.
Não existindo ainda um tratamento medicamentoso específico, a escolha da terapêutica fica condicionada Pa sintomatologia ao para da experiência do clínico que indica ou prescreve.
Neste sentido. E. Donzelot e Kisthinios dizem acertadamente: “A ausência de conclusões patogênicas dispensa-nos de insistir sobre o fato de que atualmente, não se pode cogitar de instituir um tratamento especifico da hipertensão arterial permanente.
Existe em compensação, um certo número de meios higiênicos, medicamentosos e físicos susceptíveis de prestarem serviços aos hipertensos, ao menos no ponto de vista sintomático.
“Quando às curas hidro-minerais, curas de diurese e tratamento pelos banhos carbo-gasosos não capazes de aliviar muito nitidamente os hipertensos”.
As dificuldades na escolha de um preparado farmacêutico para tratamento da hipertensão continuam desafiando os nossos conhecimentos mesmo neste século dos anti-bióticos. Nenhum dos remédios apresentados tem a desejada especificidade.
A pobreza dos recursos medicamentosos na terapêutica da hipertensão é um fato conhecido. Todos os preparados comerciais são mais paliativos do que curativos e se baseiam em 4 princípios gerais: vasodilatadores, moderadores do sistema nero – vegetativo, endocrínicos e modificadores da massa sanguínea.
Estribados nesses princípios é que escolhemos o tratamentos visando o conjunto sintomático e sob esse critério proclamamos a excelência da escolha e indicação dos banhos carbo-gasosos feitos na Estâncias Hidro-minerais que possam oferece-los naturalmente.
Afastando o paciente do meio em que vive, num período de cura e repouso, eliminaremos a maioria dos fatores psicossomáticos que são elementos categorizados na elevação da pressão arterial.
O uso moderado das águas minerais, proporcionando uma cura de diurese e desintoxicação, uma verdadeira cura de lavagem ao par dos efeitos terapêuticos das águas minero-medicinais sobre o aparelho digestivo, sobre o fígado rins, enfim sua ação dinâmica sobre a nutrição geral da qual não foge, sua influencia sobre o sistema nervoso simpático, com uma ação que poderia ser chamada equilibradora, devem ser levados em conta para a indicação terapêutica que se deve proporcionar aos hipertensos.
É forçoso concluirmos que ao par do repouso físico e mental contamos com o uso interno das águas minerais de elevado poder terapêutico.
Altitude – Convém esclarecermos que na escolha da Estância para onde mandamos os hipertensos não devemos temer o problema da altitude que ainda apavora muita gente.
Salvo as contra indicações dos descompensados, a altitude não impede a estadia do hipertenso em nossas estações das águas, que tanto como os cardíacos compensados podem freqüentar confiantemente.
Diz o Dr. Kart Fahrenkamp: “É falsa de qualquer maneira, a suposição de que correm riscos os doentes cardíacos desde que subam a mais de mil metros de altura”.
Sabemos que acima de mil metros a altitude é classificada como elevada e abaixo como média até 500 metros.
Se aquela não constitui uma contra indicação fundamental, com maior razão as altitudes médias não servirão de empecilho para uma estadia dos cardíacos e hipertensos.
Pelo contrário, o proibir a esses doentes, quando em condições clínicas satisfatórias uma viagem ou estadia em nossas estâncias, ocasionaria efeito mais nocivo que benéfico, face do resultado contraproducente ao estado de saúde do enfermo que, amendrontado, sofreria um recalque moral e físico desnecessário.
Tendo-se em conta que Caxambu está numa altitude de 900 metros, com clima ameno e temperado, sem grandes ventos julgamos que poderá ser freqüentada sem receio por essa categoria de enfermos.
Usando nesta estância a terapia crênica e balneo-gasosa, poderão ainda receber os benefícios de um repouso prolongado, a tranqüilidade moral e a despreocupação dos problemas dos negócios, realizando uma verdadeira profilaxia ou higiene cardio vascular.

INGESTÃO DA ÁGUA E REPOUSO

A questão da restrição dos líquidos aos hipertensos não pode nem deve ser tomada no sentido sistemático.
Desde que o rim esteja respondendo normalmente aos estímulos que regulam a excreção do liquido, mesmo nos casos de nefrite, pode ser dada a água desde que se cuide de orientar o tratamento crenoterápico com a devida assistência médica, que dosará a quantidade necessária.
Quando se trata de hipertensão essencial pura, sem o comprometimento dos rins por processos inflamatórios agudos ou caquetizantes, um regime das águas minerais só pode beneficiar grandemente o hipertenso. Recomenda-se que não se beba copiosamente, porém um regime moderado tem uma perfeita indicação clínica, já por nós verificada, útil e benéfica.
Queremos crer que é de formal utilidade ao hipertenso um plano anual de cura e repouso em nossas estações hidroclimáticas. Vamos citar aqui a judiciosa observação do Doutor Karl Fahrenkamp em seu livro “O cardíaco”: “Dentro das grandes cidades, os melhores conselhos médicos soa ilusórios. No campo, esses mesmos conselhos são desnecessários, porquanto as novas condições de vida realizam por si mesmo todas as exigências, mesmo sem as respectivas recomendações”.
Também o doente de hipertensão essencial e mesmo outros cujas condições não façam suspeitar uma descompensão, tem no simples fato do afastamento da vida agitada dos grandes centros ou das preocupações habituais de sua existência, um período de recuperação física ou mental de proveito indiscutível.
A grande porcentagem dos casos de hipertensão e devida a fatores psico-somáticos que englobam todas as preocupações do lar, dos negócios ou da própria existência com relação à coletividade. O afastamento dessas preocupações que aceleram a estafa ou o estazamento faz parte da orientação terapêutica afim de que sejam reparadas as energias gastas tanto do físico quanto da mente.
No hipertenso muitas vezes aparece também uma outra modalidade de estafa que poderíamos chamar de estafa medicamentosa.
Não havendo um medicamento específico, mudam de médico e de tratamento, buscando ainda recursos no lamentável costume de aproveitar do receituário oriundo da publicidade espalhafatosa feita através da imprensa ou do rádio.
Resulta disso também uma fadiga moral e física cujo resultado é maléfico.
Um tratamento isolado e monosintomático não resolveria as necessidades do enfermo nem reavivaria sua confiança
Nas Estâncias hidro-minerais, porém e, especialmente em Caxambu, poderemos obter um tratamento somático, com o complemento de outros processos medicamentosos, para uma melhor recuperação funcional capaz de proporcionar um equilíbrio normal na vida do hipertenso.

RADIOATIVIDADE

Outro fator que se deve levar em conta nesta importante modalidade terapêutica é sem dúvida alguma a radioatividade.
Na época em que vivemos, quando os estudos da energia atômica prendem a atenção de todo o mundo cientifico a radio emanação das águas minerais, deve ser considerada com o maior interesse.
A radioatividade expressada em unidades “Mache” tem nas Águas de Caxambu a seguinte gradação:

  • Fonte D. Pedro: 43,3
  • Fonte Viotti: 42,9
  • Fonte Mayrink I: 38,7
  • Fonte Mayrink II: 31,30
  • Fonte Conde D’Eu: 12,5
  • Fonte Beleza: 5,6
  • Fonte D. Leopoldina: 5,5
  • Fonte D. Isabel: 4,2
  • Fonte Venâncio: 4,0
  • Fonte Duque de Saxe: 3,1

O seu aproveitamento terapêutico é feito quer pela inhalação, pela ingestao ou penetração através da pele.
Quando usada por intermédio do banho carbo-gasoso levamos em conta não só a penetração pela pele, mas também a inhalação.
Seus efeitos biológicos são ativadores do metabolismo. Possui ação equilibradora do sistema vago-simpático e endócrino com aproveitamento no tratamento da síndrome hipertensiva.
Diz Henrique Tschelnitz em seu livro “Radium e Radioatividade”: – “É muito interessante avaliar o efeito de um tratamento numa Estação de Águas Radioativas. Bebendo-se uma tal água de concentração média, digamos 20 unidades Mache por litro, e tomando-se durante um mês diariamente um litro, formam-se no nosso organismo, segundo o cálculo de A. Fernau, 2,5 milhoes de partículas Alfa por dia ou sejam 75 milhões por mês”.
Se além da ingestão da água ainda podemos utilizar os banhos com águas carbo-gasosas radioativas iremos naturalmente aproveitar os seus efeitos através da inhalação e da penetração através da pele, quando concentrando-se o “Radon” nas bolhinhas gasosas há de provocar uma maior intensidade de irradiação.
É muito elucidativo o que dizem Lemierre e Besançon quando estudam as Estâncias de cura hipotensivas.
Para robustecer estas considerações, vamos citar dois tipos de águas que pertencem a esse grupo clínico: As águas carbo-gasosas e as radioativas; (divisão esquemática, porque as águas encerram, por vezes, gás carbônico e emanações radioativas simultaneamente e, Caxambu está neste caso).
1 – Águas Carbo-gasosas: o tipo é o representado por Royat, o efeito poderoso dos banhos carbo-gasosos de Royat lhe confere uma grande originalidade clínica e lhe assegura uma supremacia incontestável na hipertensão.
2 – Águas Radioativas Sedativas: o tipo é representado por Bains-le-Bains. Seu teor em emanações de radium da fonte Saint Colomban é de 22 microcuries por litro, – possuem propriedades radioativas particularmente preciosas no tratamento dos espasmos vasculares.
Encontramos em Caxambu um grupo de águas que além de carbo-gasosas naturais, são dotadas de um teor radioativo comprovado o que lhes confere a qualidade do aproveitamento concomitante tal como nos grupos citados por Lemierre e Besançon que, descrevendo o mecanismo em ação das curas termais, afirmam que a ação sobre a hipertensão arterial constitui um dos processos fisio-patológicos melhores estudados (Amblard, Belgougnan, Heitz, Vital e Lassance).
Embora, em nosso país, não acompanhemos como seria necessário esses estudos, não podemos nem devemos menosprezá-los.
Precisamos criar também aqui a mentalidade cientifica em torno da sua utilidade para a nossa clínica. Possuímos uma riqueza hidromineral, que nada fica a dever aos demais países e é mister reconhecer e prestigiar com a atenção devida nossos sistemas de cura Hidro-Climáticas, através de melhores estudos para que nos coloquemos no lugar que nos cabe entre as nossas congêneres de todo o mundo.
Para isso, antes de tudo, é preciso que o médico brasileiro encare com apreço os estudos do Hidro-Climatismo que constitui um ramo de ciência de alta e significativa importância.

CONCLUSÕES TERAPÊUTICAS

Sobre o que foi dito podemos tirar as seguintes conclusões:
a) – Os banhos carbo-gasosos exercem uma ação equilibradora nos portadores de uma síndrome hipertensiva.
Esse efeito é progressivo, moderado, podendo manter-se durante o período da cura ou mesmo por tempo indeterminado posteriormente ao tratamento.
b) – A utilidade dos banhos carbo-gasosos, mesmo nos casos em que não se consegue obter uma baixa tensional, é aceita por todos os autores. Provocando uma espécie de ginástica cardio-vascular o banho profilaticamente permitindo ao organismo suportar sem grandes sacrifícios as elevações bruscas da pressão arterial.
c) – Há um efeito benéfico evidente sobre as pertubaçoes funcionais que geralmente acompanham os hipertensos: emotividade exagerada, dormência, cefalalgias, pertubaçoes visuais, zumbidos nos ouvidos etc…
d) – A experiência demonstrou que o banho carbo-gasoso feito com água gaseificada artificialmente não dá o resultado igual ao banho naturalmente gasoso, obtido nas estâncias hidro-minerais que possuem águas carbo-gasosas nativamente.
e) – A cura cabo-gasosa associada ao uso interno das águas minerais radioativas e diuréticas tem inestimável valor terapêutico no tratamento da síndrome hipertensiva, quando devidamente prescrita.

CONTRA-INDICAÇÕES

As contra-indicaçoes que devem ser consideradas para a Belneo-Terapia Carbo-Gasosa, nos hipertensos, dependem em princípio do critério do próprio assistente ao indicar o tratamento.
De antemão devemos repetir que na síndrome hipertensiva pura ou essencial não na contra-indicações, ponderáveis.
Quando porém a hipertensão vem associada a outra lesão ou entidade mórbida, então precisamos ter maior cuidado ao prescrever a balneoterapia carbo-gasosa.
Consideremos por exemplo o caso das nefrites. A existência de lesões renais mínimas não contra-indicam, e o tratamento pode até ser favorecido se aos banhos associarmos o uso de águas minerais por ingestão. Também se encontramos uma azotemia ligeira podemos recomendar o banho associado ao uso de águas minerais que de preferência devem ser ingeridas em clinostatismo. Desse modo obteremos uma ação diurética intensa, uma verdadeira cura de “lavagem” cujo efeito é de valor reconhecido.
Contudo, quando a uréia ultrapassa de 1 grama por mil, não devemos prescrever uma cura hidromineral ou carbo-gasosa, sem uma rigorosa fiscalização no estado renal.
Havendo uma insuficiência renal, enriquecida de hematuria, cilindruria albuminária, evidentemente contra-indicaremos esta modalidade terapêutica.
Este cuidado deve merecer toda a atenção quando se tratar dos cardio-renais, onde tem maior importância a fiscalização da retenção ou eliminação hídrica.
Uma contra-indicação que devemos respeitar é aquela dos doentes em estado de hiposistolia, mormente se esta estiver ligada a uma lesão cario-vascular. Não seria necessário dizer que quando a descompensaçao torna-se evidente, acompanhada de edemas, anasarcas, etc… não podemos nem devemos recorrer ao processo de tratamento aqui apresentado.
Outro cuidado que merece nossa atenção é o de não recomendar uma cura dessa natureza a doentes acometidos de estado anginoso com crises subnitrantes muitas vezes prenunciadoras de um enfarto do miocárdio. De nenhuma utilidade seria permitir o tratamento em apreço nos casos de endocardite infecciosa ou maligna onde há formal contra-indicação.
Convém finalmente não esquecermos que aos cardíacos em estado muito adiantado e com idade avançada não se deve permitir a cura balneo-gasosa e nem mesmo tira-los de suas casas em busca de uma estação de águas, que não lhes pode mais favorecer.
Em linhas gerais, são essas as considerações que podemos fazer em torno das contra-indicações dos banhos carbo-gasosos no tratamento da hipertensão, esperando que, com o desenvolvimento de melhores estudos e observações possamos ampliar as condições atuais em benefício de quantos recorrem às curas carbo-gasosas naturais em nossas Estâncias Hidro-Climáticas.

TÉCNICA DE CURA

Vimos em linhas gerais uma síntese do que tem sido estudado em relação aos banhos carbo-gasosos. Devemos agora dar uma idéia de como é feito o banho em Caxambu e em que se baseia a técnica de sua aplicação.
Dois princípios fundamentais devem ser levados em consideração para que se obtenha um resultado proveitoso:
1. – Temperatura do Banho.
2. – Teor de gás carbônico dissolvido na água.
No manejo desses dois elementos é que se baseia a técnica de sua aplicação.
Quantidade de Gás Carbônico por litro das Águas de Caxambu:

  • Fonte Beleza: 2,351
  • Fonte D. Isabel: 2,311
  • Fonte Duque de Saxe: 2,155
  • Fonte Venâncio: 2,050
  • Fonte D. Leopoldina: 2,000
  • Fonte Conde D’Eu: 1,706
  • Fonte D. Pedro: 1,693
  • Fonte Viotti: 1,056
  • Fonte Mayrink I: 0,871
  • Fonte Mayrink II: 0,817

Temperatura natural e constante em graus centrigrados:

Fonte Mayrink II ………………. 25,7
Fonte Venâncio ………………… 25,5
Fonte Mayrink I ………………… 24,3
Fonte Viotti ……………………… 23,9
Fonte Duque de Saxe …………. 23,3
Fonte Beleza …………………….. 23,3
Fonte D. Pedro ………………….. 23,0
Fonte D. Leopoldina ………….. 22,0
Fonte Conde D’Eu …………….. 21,7
Fonte D. Isabel …………………. 21,6

Sabemos que essa terapia é também empregada em outras afecções cardio-vasculares. Assim é que, estão acordes os autores, quanto ao emprego na insuficiência cardíaca, nas artrites etc… mesmo quando não houver elevação tensional. Nesses casos as observações nos conduzem a indicar um banho hipergasoso com temperatura abaixo do indiferente, isto é: de 33º a 35º, pois deste modo poderíamos obter um efeito cardiotônico e mesmo profilático das descompensações. O banho hipergasoso tem sido por nós prescrito em casos de varises superficiais, muito comuns nos membros inferiores. Deschamps os aconselha nas arterites obliterantes onde a balneoterapia carbônica exerce ação sedativa sobre os processos angio-espasmódicos, ação tanto mais eficaz quanto os vasos atingidos são relativamente mais superficiais e acessíveis. Todavia, quando se trata de uma síndrome hipertensiva, a experiência aconselha o banho hipogasoso, numa temperatura indiferente, isto é, de 35º a 36º.
Esta modalidade de aplicação ocasionará uma hipotensão mais duradoura e dominante. (Papp, Lassance e Deschamps).
A nossa observação pessoal tem comprovado que é esse realmente o melhor critério.
Outro aspecto que precisamos considerar é a duração do banho, ou melhor o tempo de permanência do corpo na banheira. Temos verificado que o tempo médio deve ser de 10 a 15 minutos. Casos há porém, onde iniciamos com um tempo menor, 6 minutos, ou algumas vezes ultrapassamos indo até 20.
Ainda neste ponto baseamos nossa orientação no que observa Pietro Farnetti: – “O banho carbônico de longa duração não provoca modificação tensional útil mas, sim um efeito paradoxal transitório, que embora não implique na agravação da doença, não oferece também vantagens aceitáveis”.
Quanto ao número de banhos que dever ser prescritos varia de caso para caso, porém em média prescrevemos de 12 a 15, podendo porém chegarmos até 20 ou 25 com proveito para o doente.
É claro que deve haver um controle da medida da pressão durante a “cura” pois muitas vezes somos levados a modificar a orientação e o bom critério será para manter uma vigilância médica relativa.
Após o banho convém submeter o paciente a um pequeno repouso que poderá ser feito no próprio balneário onde existem salas adequadas para esse fim.
Com essas preliminares indispensáveis estabelecemos no nosso receituário o seguinte modelo:
O Sr. …………………………………. deve usar banhos carbo-gasosos na temperatura ………………………………….. graus.
Teor do CO2 ……………………………………………………………………………
Durante……. minutos ……. dias. Numa série de …………….aplicações.
Repouso após o banho ………….. minutos.
Observações e Regime Alimentar ……………………………………………..
Com a necessidade de atender os requisitos acima apontados é que em Caxambu, o sistema mecânico construído obedece o seguinte critério:
a) – Controle exato da Temperatura e do tempo.
b) – Controle do teor CO2 na banheira.
O tempo é marcado por meio de um relógio adaptado num quadro que preside o mecanismo. O teor CO2 é estabelecido por meio de dispositivos misturados da água de 2 fontes, Mayrink e Venâncio, cujo teor em gás carbônico é diferente, menor na 1ª e maior na 2ª.
A temperatura é obtida mediante um moderado reaquecimento em serpentinas, momentos antes da água emergir na parte interna da banheira, o que é feito sem nenhum bombeamento, evitando-se com isso o desperdício de gás.
É notar que as fontes abastecedoras são hipotermais, sofrendo somente um ligeiro reaquecimento limitado para atingir o grau exigido para cada banho.
Com esses cuidados de ordem técnica, podemos obter banhos com 30, 45, 70, 100% de gás carbônico dissolvido com a temperatura deseja.
Para isso obtermos, basta um simples manejo nas chaves dispostas num quadro de comando colocado na entrada das salas de banho e manipuladas por um enfermeiro, segundo o receituário adotado pela prescrita médica.
Existem no Estabelecimento Hidroterápico em Caxambu, 8 banheiras apropriadas, sendo 4 para uso das senhoras e 4 para os homens.
Essas banheiras estão ligadas ao sistema mecânico que não permite a fuga do gás desde a fonte até sua entrada na própria banheira no momento que é preparado o banho
O sistema mecânico existente é muito interessante e de custosa montagem e está instalado em nível abaixo das próprias banheiras.
No gênero julgamos ser o mais completo e aperfeiçoado dentre todos os existentes nas Estâncias Hidro-Minerais da América do Sul, pois acreditamos ser a única aparelhagem feita no Brasil capaz de prever, a critério do médico, o manejo simultâneo dos excitantes chamados térmicos e químicos por Vasquez.

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